Na parte velha da região, ruínas viram prédio novo

ADRIANA FONSECA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Estacionamentos, construções em ruínas e galpões vêm sendo transformados em modernos empreendimentos imobiliários na República, distrito que concentra 18 dos 41 lançamentos imobiliários da área central da cidade nos últimos cinco anos.
São 1.463 imóveis disponíveis, nos bairros de Santa Efigênia, Vila Buarque, parte da Bela Vista e República, que sozinha soma 530 unidades.
Só a incorporadora Setin tem cinco empreendimentos na região. O primeiro foi lançado no fim de 2011. Batizado de Downtown Brigadeiro, fica entre os metrôs Sé e Anhangabaú. Entregue em março de 2015, o prédio tem apartamentos de 40 m² a 57 m², com um ou dois quartos. Na área de lazer, piscina, academia de ginástica e lavanderia. Pelo sistema "pay-per-use" (pague se usar), é possível contratar personal trainer e serviço de limpeza.
"O morador da região central exige serviços agregados. É preciso oferecer tudo o que se tem em uma casa grande, mas sem a metragem e a necessidade de manter funcionários", diz Antonio Setin, fundador da empresa.
A Cyrela é outra incorporadora que vem investindo na República. Nos últimos anos, foram três os lançamentos da empresa na região.
O mais recente é o Inspired in São Paulo, com previsão de entrega para maio de 2018. Localizado na rua Álvaro de Carvalho, o edifício tem apartamentos estúdio ou com um dormitório (de 42 m² a 49 m²) e a opção de uma ou nenhuma vaga de garagem.
Adriano Vizoni/Folhapress | ||
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Fachada do edifício Mood, com 27 andares, na rua Álvaro de Carvalho |
NOVA REPÚBLICA?
Nos últimos anos, com o tema da mobilidade urbana em alta, a República ganhou destaque, de acordo com Renato Ventura, vice-presidente executivo da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias).
"Esse movimento contribuiu para uma oferta maior de serviços na região, com novos restaurantes e espaços culturais. É um círculo virtuoso", afirma Ventura.
Para Leonardo Loyolla, professor do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Anhembi Morumbi, a dinâmica do mercado imobiliário da região tem se transformado, o que influencia no perfil desses bairros.
"A chegada de novos moradores, sobretudo de classe média, pode trazer efeitos benéficos para o centro da cidade, como uma maior diversidade social e a redução do esvaziamento das ruas durante a noite, um problema recorrente da região."
O perfil de quem compra apartamentos novos no centro antigo costuma ser variado. Na BKO, que soma três lançamentos na região nos últimos anos, metade dos imóveis fica com os investidores, segundo Alexandre Carola, diretor comercial da incorporadora e construtora.
Entregue há cerca de três meses, o Uptown Arouche, um empreendimento da BKO e Upcon, tem apartamentos de um dormitório e fechadura biométrica. No espaço de uso comum, tomadas especiais para carregar bicicletas e carros elétricos.
"Facilidades tecnológicas e a preocupação com sustentabilidade são questões importantes para o público que hoje quer morar no centro da cidade", afirma Carola.
ANÁLISE
Para muitos paulistanos, bem como para habitantes de outras grandes cidades do planeta, a metrópole não é somente um lugar infernal de exposição a riscos, violências e degradações urbanas. É também o lugar dos recursos e das oportunidades.
Junto com a condição socioeconômica, a localização da moradia é um dos principais fatores que possibilitam a vivência de uma relação mais positiva com a metrópole. Daí a busca por áreas mais centrais onde se pode fazer quase tudo a pé.
Em minha tese de doutorado, que defendi recentemente na Unicamp (Universidade de Campinas), verifiquei que a maior parte dos apartamentos de São Paulo está no centro antigo e expandido. Entre 2000 e 2010, houve um aumento de 64% no número de apartamentos ocupados só por uma pessoa na região.
Os moradores desses imóveis unipessoais representavam 59% dos habitantes de apartamentos da região. Parte dessas residências com apenas um morador era ocupada por mulheres idosas e parte por adultos jovens, interessados em morar nos locais que possibilitam acesso melhor aos benefícios e oportunidades da vida urbana.
Creio que essa é uma das explicações para a inversão demográfica registrada nos bairros mais centrais de São Paulo, onde se encontram as melhores estruturas de oportunidades da vida urbana.
KAZUO NAKANO é arquiteto e urbanista, doutor em demografia pela Unicamp, e professor da Fundação Getulio Vargas