PROJETOS EDITORIAIS ANTERIORES

1988 - A hora das reformas

APRENDENDO COM AS FALHAS

A Folha beneficiou-se, até agora, de uma situação em que seus defeitos crônicos - acabamento precário da edição, falhas de reportagem, inexperiência e instabilidade da equipe –eram largamente obscurecidos pelo destaque que, em comparação a outros órgãos de imprensa, obtinham suas maiores qualidades– agilidade, ausência de ranço ideológico, prestação de serviços, pluralismo, espírito de controvérsia, imaginação e irreverência. Nesse período, a Folha tinha de lutar apenas contra si mesma: contra o risco de exagerar o que tinha de bom (transformando-o em arbitrariedade, invencionice, gosto de chocar) e contra o risco de naufragar no que tinha de ruim. O Manual Geral da Redação talvez tenha correspondido, exatamente, a esse esforço de autodisciplina.

Atualmente, as transformações no restante da imprensa diária e a concorrência permanente da televisão impõem um tipo de preocupações que não mais decorre, simplesmente, da necessidade de fazer um bom jornal –idéia que vai sendo absorvida pelos concorrentes - mas de corresponder, de fato, ao lugar de liderança obtido pela Folha até agora. A necessidade de investir no pluralismo, na preocupação como ser um jornal ágil e moderno, de fornecer informações precisas e confiáveis ao leitor foi-se tornando evidente e disseminando na imprensa brasileira. É sinal do sucesso do Projeto Editorial da Folha. Mas não é mais a garantia do sucesso para a Folha enquanto produto.

Depois de um longo período de marasmo, em que a Folha parecia ser, no conjunto da mídia, o único local onde havia vida e movimento, uma febre de mudanças sacode os jornais, as revistas, a TV. É como se as tendências do desenvolvimento ideológico da sociedade, primeiro manietadas pela repressão, depois excessivamente absorvidas pela paixão da política que novamente se abria, finalmente irrompessem como desembaraço, vigor e autenticidade. Agências com mentalidade nova e agressiva investem contra as "sete irmãs" do mercado de publicidade. Emissoras antes desacreditadas mostram que são capazes de desenvolver uma estratégia que lhes garante um lugar ao sol e que vai mostrando o quanto equivocada era a idéia de que estavam condenadas à marginalidade. Há novidades no mercado de revistas; no mercado de livros, editoras novas comprovam até onde se pode chegar, com imaginação e sensibilidade para perceber que os leitores estão muitas vezes além do lugar em que tendemos a colocá-los. No setor da imprensa diária, a competição por prestígio, por mais anúncios e por mais leitores adquire uma característica feroz de guerra total: os jornais que se contentaram com a sua aura de tradição e elegância se vêem subitamente ameaçados de extinção; outros, que demoraram a compreender o que se passava, se lançam agora a uma tentativa atabalhoada de recuperar o tempo e a posição que perderam, ainda que essa recuperação lhes custe a própria identidade. Seria pouco dizer que a Folha não pode, agora, isentar-se dessa ebulição que necessariamente transformará em todos os seus aspectos a indústria de comunicações do país. Muito mais do que isso, a Folha está no centro dessa ebulição: é sua causa direta no que diz respeito à imprensa diária e está também na origem, indiretamente, das alterações velozes e profundas no restante da mídia, por influência do espírito que criou.

Chegamos ao final da década vitoriosos. Os pressupostos e os métodos do Projeto Editorial que vem se desenvolvendo aqui são reconhecidos por quem antes se mostrava incrédulo; copiados por quem até há pouco nos hostilizava. Adotados na prática por quem ainda insiste em fazer profissão de fé contrária a nós. O Projeto da Folha se tornou, em poucos anos, patrimônio coletivo do jornalismo brasileiro –eis aí a maior recompensa que poderíamos almejar, e também o maior risco. Até agora, foi relativamente fácil neutralizar os defeitos e fraquezas da Folha acenando com as ousadias de que só ela era capaz, com as inovações que ela introduzia uma após a outra, com o espírito de inconformismo, de rebeldia, de radicalidade que parecia perdoar-lhe as falhas todas. Esse monopólio de vantagens, de que desfrutamos por alguns anos, é no momento posto em xeque por todos os lados, pelos que nos apóiam e pelos que ainda se opõem ao que representamos, pelos que imitam, pelos que se renderam, pelos que persistem solitários e irredutíveis. Ao disseminar a idéia de que é preciso estar sempre mudando, sempre desconcertando, de surpresa em surpresa, a Folha tornou-se vítima da sua própria estratégia: não lhe resta outro caminho senão continuar, não há tranquilidade que ela possa alcançar, nem descanso, exceto o que vier assinalar que ela parou no tempo.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Reprodução de página do projeto editorial publicado na Folha de S.Paulo em 1988
Reprodução de página do projeto editorial publicado na Folha de S.Paulo em 1988

Ao lado da concorrência com outros jornais, que se torna cada vez mais uma luta pela melhor qualidade do produto, há a concorrência com a TV, que pode ser resumida como uma luta pela melhor qualidade da informação veiculada. Estes dois desafios podem ser respondidos pela Folha. Em primeiro lugar, acumulou-se na Redação um conhecimento básico dos procedimentos, exigências e normas de qualidade, implantados pelo Manual, de que só agora os concorrentes começam, de forma empírica, a tomar ciência. Em segundo lugar, a busca de uma cobertura diferenciada e imaginosa para os fatos, a diversidade de opiniões e de enfoques veiculada pelo jornal, apesar de trazer resultados ainda incipientes, faz entrever o caminho para superar aqueles pontos em que a concorrência de televisão é de fato imbatível: a exposição concreta do fato, a informação instantânea e bruta.

Interessa, então, capitalizar ao máximo os avanços já obtidos na construção de um jornalismo que leve até as últimas consequências os pontos de um projeto que, anteriormente, bastava atingir de forma razoável, mediana e aparente para ficar na liderança da imprensa brasileira. Se for para resumir numa frase o objetivo imposto pelo desafio de uma dupla concorrência, seria o caso de dizer que é preciso, mais do que nunca, fazer a luta contra o óbvio. O óbvio de uma transcrição, de um relatório acrítico dos fatos –coisa que a TV faz melhor–, e o óbvio de um aplicação mecânica de alguns procedimentos que, já incorporados pela Redação, começam a ser copiados pelos jornais concorrentes. Há um óbvio do pluralismo, um óbvio da exatidão, um óbvio da modernidade, um óbvio da isenção jornalística. Se não formos capazes de fazer desse pluralismo, dessa exatidão, dessa modernidade, dessa isenção jornalística (qualidades que nos garantiram o sucesso até aqui) o ponto de partida para em esforço de criatividade, de sofisticação, de imaginação e de crítica levados a seu ponto extremo de inteligência e arte, a distância até agora alcançada face aos concorrentes vai perder-se na indiferenciação, na rotina e na mediocridade.

É preciso continuar, então. É preciso cultivar o sentimento de que apesar de todos os avanços ainda há o fazer; de que apesar de todos os esforços e de todas as lutas - contra o jornalismo chapa-branca, contra o corporativismo profissional, contra a ignorância, contra o populismo, contra as concepções românticas, e provincianas de imprensa –o trabalho mal começou. Sem esse espírito de insatisfação e de autocrítica constante, sem uma vontade perfeccionista de fazer aquilo que já foi bem feito e de inventar novas fórmulas para resolver novos problemas, é perda de tempo trabalhar na Folha. O jornal está firmemente disposto a ultrapassar sua próprias marcas e exigir cada vez mais.

Como solucionar simultaneamente todos os problemas que temos pela frente? Como conciliar tantas contradições? Como continuar crescendo num mercado a cada dia mais competitivo? Como inovar depois que todas as mudanças parecem já ter sido feitas? Como atender às demandas de um público que tem interesses crescentemente diversificados e múltiplos, e parece dispor de cada vez menos tempo e inclinação para ler jornais? Como conciliar qualidade e quantidade de leitores? Como adequar as mil e uma precauções com o que melhor convém para o leitor, as necessidades de um acabamento de qualidade artesanal, às implicações e ao ritmo de uma indústria? Como fazer um jornalismo ao mesmo tempo mais analítico e mais conciso? Mais inteligente e mais acessível? Mais planejado e ainda assim apto para responder ao imprevisto de última hora, numa palavra –à notícia?

A primeira edição do Manual, de setembro de 1984, já dizia que "tudo o que puder ser dito sob a forma de mapa, gráfico ou tabela não deve ser dito sob a forma de texto". Fomos pioneiros na valorização desses recursos. Eles ocupam hoje uma posição de destaque no conjunto de cada edição da Folha e são reconhecidos como instrumento altamente eficaz para tornar a leitura dos jornais mais atraente, mais rápida e mais proveitosa. Foi à custa de muito esforço que esses recursos se impuseram e hoje aparecem ao lado dos textos, em pé de igualdade com eles –mas ainda fracamente integrados a eles. Os recursos de arte não constituem apenas um complemento do texto; devem formar um todo com ele e a preocupação do arte-finalista com a reportagem deve ter por contrapartida uma idêntica preocupação do jornalista com o aproveitamento ao menos de parte das informações que ele apurou sob a forma de tabelas, quadros, gráficos etc. O restante da imprensa diária está, ainda, num estágio muito primitivo de confecção do seu material iconográfico. Esta situação tende a se modificar rapidamente e mais do que nunca é necessário investir, agora, na qualidade do acabamento e na eficácia da concepção dos nossos mapas e quadros, que são tantas vezes deficientes.

Raciocínio semelhante vale para a fotografia, terreno em que a Folha experimentou considerável progresso recentemente. Incorporamos ao procedimento do fotojornalismo padrões que até então estavam reservados à fotografia artística: ângulos e enfoques diferenciados; ênfase no detalhe das fotos de esportes; fórmulas para que as fotos de jornal expressem mais do que mera imagem e se entrelacem com o significado do evento a que essa imagem está ligada; interesse maior por imagens de beleza plástica e de efeito inusitado, ainda que sua temperatura noticiosa seja baixa. Também aqui é preciso depurar os avanços realizados; evitar com igual energia tanto o retorno ao fotojornalismo convencional como o exagero que consiste em esquecer que num jornal tudo o que se publica deve ser informação.

REFORMA GRÁFICA

Desde 1987 está em estudos uma reforma gráfica do jornal. Ela será um desdobramento natural da história gráfica da Folha, congruente com a fisionomia que o jornal desenvolveu ao longo das últimas décadas e ao mesmo tempo pragmática do ponto de vista da produção industrial das edições. Permitirá que se identifiquem plasticamente os vários tipos de texto –factual, de apoio, de interpretação e comentário etc. com a implantação paulatina dessa reforma, esperamos que o jornal passe a dispor de um arcabouço gráfico capaz de sustentar seu desenvolvimento na próxima década. Nos primeiros meses de vigência deste texto do Projeto Editorial, o mais importante passo dessa reforma deverá ser implantado: a modulação, procedimento que vai tornar irresistível a industrialização do design das páginas e que será também, mais cedo ou mais tarde, seguido pelos outros jornais.

PROFISSIONAIS QUALIFICADOS

A peculiaridade da situação em que nos encontramos reside sobretudo no caráter conjugado dos problemas que temos de atacar. É necessário agir em várias frentes ao mesmo tempo e não negligenciar nenhuma delas ao investir nas demais, precisamos impedir que a libertação dos controles internos e que o empenho para evitar a burocratização do trabalho jornalístico nos levam a um retrocesso. O Manual deve ser observado com inteligência, bom-senso e sensibilidade, mas suas normas estão e vão continuar em vigor. Devemos aprimorar nossos mecanismos de seleção de profissionais, estimular a especialização jornalística, simultaneamente encorajar a versatilidade e evitar que o trabalho de cada um se fossilize no exercício prolongado demais de uma mesma ocupação. Os programas de treinamento e os seminários internos têm dado resultados positivos mas até aqui tímidos; temos de melhorar a eficácia desses mecanismos, assim como é necessário agilizar o Programa de Metas, há muito tempo estiolado numa rotina que quase se resume a um ritual. Temos de aumentar o relacionamento do jornal com as culturas estrangeiras e com as fontes de informação e de experiência jornalística sediadas no exterior; muito está sendo feito nessa direção –ainda não é o bastante, contudo.

SEGMENTAÇÃO OU RIQUEZA DE DETALHES?

Segmentamos o jornal em cadernos e suplementos, de modo a organizar psicologicamente a leitura e atrair novas frações do leitorado. Foi uma decisão correta, que também não tardará a ser imitada; quem de nós, no entanto, se considera satisfeito com o conteúdo de cada caderno e de cada suplemento?

Mas o núcleo central dos nossos problemas está, como não poderia deixar de ser, no núcleo mesmo do jornalismo: O texto, a reportagem. O problema do texto, de sua má qualidade média, é de tal forma grave que na reestruturação da Secretaria de Redação, formalizada em julho de 1988, uma terceira área desse organismo central –a de Planejamento– foi especialmente destacada para encarregar-se de transformar, e rapidamente, o texto da Folha.

A qualidade da reportagem tem oscilado entre os grandes –e infelizmente eventuais– furos jornalísticos e uma rotina de pautas pouco imaginativas; entre os esforços concentrados dos cadernos especiais e das edições de grandes eventos, geralmente bem-sucedidos, e uma sensível precariedade na cobertura dos fatos do dia-a-dia. É indispensável investir numa máxima diferenciação de enfoques, no deslocamento das atenções, na descoberta do que não foi dito, não foi perguntado ou não foi lembrado a respeito de cada acontecimento. Isso não significa lançar-se na invencionice e na arbitrariedade, cujo principal mecanismo psicológico parece ser o hábito, não ir ao encontro dos fatos, mas de buscar neles a confirmação de uma generalidade, de uma abstração: a partir daí surgem os "chapéus" mais gratuitos, as associações de idéias bizarras, as valorizações do insignificante. O senso do concreto, do prático, do preciso, não se opõe à imaginação; ao contrário, é o que dá conteúdo e interesse jornalístico ao que poderia terminar como simples masturbação mental. Mas e mais as decisões jornalísticas –seja na edição, seja na pauta– terão necessariamente um quê de arbitrário: pode-se, a partir de um fato "leve", circunstancial, apenas curioso, criar um grande assunto, descobrir uma nova área de interesse, que a simples reprodução televisiva dos acontecimentos de um dia não revela. Mas para isso é necessário, antes de tudo, ter fatos concretos, solidamente apurados, ricos de detalhe, capazes por si próprios, e não por malabarismos de edição, de despertar o interesse do leitor.

PLANEJAMENTO

Na decisão sobre o que privilegiar, em quais assuntos investir, que "sides" destacar, o papel de um planejamento prévio é crucial. Ressentimo-nos ainda de uma improvisação constante, de uma corrida atrás do que já aconteceu, absolutamente negativas para o resultado final da edição e paralisantes para todo esforço de imaginação. As pautas devem ser mais e mais capazes de antecipar os fatos, aumentar a vida útil da notícia, preparar o leitor para o que possa acontecer e o jornalista para o que deverá ser lido. Dada a precariedade do planejamento e a insuficiência do dia-a-dia, o Datafolha vem, às vezes, suprir as omissões da reportagem. Devemos muitas manchetes às pesquisas do Datafolha e não há dúvidas de que, ao aliar rigor científico com agilidade, esse departamento está escrevendo um capítulo inédito da sociometria aplicada ao jornalismo. Mas será que pesquisas, tão valiosas do ponto de vista da informação, não têm ocultado a nossa incapacidade para investigar, verificar e dar por tecnicamente comprovadas informações importantes e exclusivas? Na Folha publica-se tudo o que estiver comprovado. Não temos sido capazes, entretanto, de preencher essa possibilidade com furos mais frequentes, nem mesmo com uma reportagem de rotina que tenha boa qualidade média. Vencemos uma batalha fundamental: a implantação do Projeto Editorial em Brasília, mas continuamos excessivamente presos ao jornalismo declaratório e às fontes governamentais de notícia. As eleições municipais deste ano, e sobretudo as presidenciais no ano de 1989, serão um teste decisivo no qual devemos concentrar todas as nossas energias, numa cobertura desde já absolutamente prioritária.

Todos estamos de acordo, além disso, com relação à necessidade de os textos serem completos, exatos e concisos - o leitor é cada vez mais exigente em termos do que ele necessita saber e dispõe de cada vez menos tempo para a leitura de jornais. mas na prática é lamentavelmente grande a quantidade de textos incompletos, parciais, imprecisos e prolixos que publicamos.

COMPETIÇÃO E MODERNIZAÇÃO

Para a imprensa, esta é uma época cheia de promessas. A competição direta e acirrada entre os jornais, a necessidade de melhorarem os serviços que prestam a seus leitores, de se fazerem imprescindíveis quando tudo parece tornar-se descartável é algo que abre a perspectiva de uma arrancada extraordinária nos padrões técnico-editoriais da imprensa, no espírito crítico da opinião pública e na valorização do trabalho jornalístico. Mas é também uma época sombria: os produtos jornalísticos tendem a perder suas características e confundir-se numa área cinzenta sob o predomínio da timidez e da redundância, fruto do receio de perder posições no mercado. Surge um bom senso que mal esconde o convencionalismo da imprensa que faz pose de irrequieta, que finge inovar e que é reacionária até quando se moderniza. Mais uma vez o futuro da invenção jornalística depende em grande parte do comportamento da Folha, de sua capacidade para enfrentar esta nova situação com audácia e ecletismo, de se apropriar das experiências feitas fora e dentro do país, no passado e no presente, para combiná-las e adaptá-las num modelo próprio capaz de dar resposta aos problemas práticos de cada momento. Está em nossa mãos conduzir o panorama de turbulência e competição, agora caracterizado, numa direção em que as mudanças de aparência se transformem em mudanças mais profundas e permanentes, em que a evolução do jornalismo –subitamente acelerada– contribua para o desenvolvimento real da consciência crítica, da qualidade da vida e das idéias.