ALCANCE

Facções fazem ações cooperadas de tráfico para dividir lucros e perdas

MAURI KONIG
ENVIADO ESPECIAL À TRÍPLICE FRONTEIRA

O Paraguai não produz cocaína, apenas triangula para o Brasil o que recebe do Peru, da Bolívia e da Colômbia. A droga sai dos países andinos em pequenas aeronaves que aterrissam em pistas clandestinas de cidadezinhas paraguaias localizadas na fronteira com Paraná e Mato Grosso do Sul.

As apreensões feitas nos dois lados da fronteira dão uma ideia da estrutura logística do narcotráfico. Apenas entre 2010 e 2015, a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai apreendeu 53 aviões transportando drogas, enquanto, no Brasil, outros 37 foram apreendidos no período, segundo a Polícia Federal.

A PF informou o valor de mercado de apenas 13 dessas aeronaves. Somadas, elas valem R$ 5,8 milhões. Juntas, transportavam 6,4 toneladas de cocaína. Entre bens móveis e imóveis, além de valores em espécie, foram apreendidos R$ 740 milhões das quadrilhas de traficantes nos últimos cinco anos.

Entre 2010 e 2015, o Brasil apreendeu 174 toneladas de cocaína e derivados, conforme dados da PF; o Paraguai apreendeu outras 13 toneladas. No mesmo período, o Brasil tirou de circulação 1.142 toneladas de maconha, enquanto o Paraguai destruiu 2,1 mil toneladas.

ARMAS

Além do contrabando de produtos como cigarros, pneus e brinquedos, o Paraguai é o epicentro em um mercado global que envolve as duas atividades ilícitas mais lucrativas, e tem o Brasil como maior parceiro comercial. Onde há drogas, há armas. Assim, o narcotráfico está ligado ao tráfico de armas. Ambos os países são personagens centrais nesse negócio globalizado.

Armas e drogas circulam com desenvoltura pelo Paraguai graças à falta de controle e um débil sistema de segurança alimentado pela corrupção de agentes públicos.

Dessa forma, as armas oriundas de diversos países e trianguladas pelo Paraguai são traficadas para o Brasil, onde são trocadas por cocaína, da qual parte fica no país e parte é levada para os Estados Unidos e a Europa.

Para os bandidos, o Paraguai é o paraíso para quem quer escapar da Justiça no Brasil ou planejar crimes sem ser incomodado. O que mais atrai os criminosos brasileiros ao país é poder viver tranquilamente, desde que tenham algum dinheiro para subornar policiais e autoridades.

O Paraguai está entre os países mais corruptos no mundo, segundo a organização Transparência Internacional, com sede na Alemanha. Há pelo menos três décadas serve de corredor para a cocaína dos Andes chegar ao Brasil e à Europa.

É o segundo maior produtor de maconha da América Latina, depois do México, conforme o InSight Crime in América, centro de estudos que monitora o crime organizado na região.

ARSENAL

O tráfico de drogas é o motor financeiro das organizações criminosas, mas é o poderio de fogo que garante a sua hegemonia. A armas usam as mesmas rotas do narcotráfico para chegar ao Paraguai e depois entrar no Brasil.

Embora os dois crimes se espraiem por toda a faixa de fronteira, há uma predominância de drogas na região de Mato Grosso do Sul e de armas no Paraná.

Trinta mil armas de fogo são traficadas todos os anos do Paraguai para o Brasil, a maior parte destinada a organizações criminosas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O estudo foi elaborado em 2010 pela Fundação Arias pela Paz, mantida pelo ex-presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz Oscar Arias, mas desde então não houve mudança substancial que alterasse o quadro.

O Paraguai é um corredor para armas de alto calibre, automáticas ou de guerra. A maior parte se destina à revenda ao Brasil, principalmente a organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho, ambas também vinculadas ao tráfico de drogas e que estão estabelecidas no Paraguai, especialmente nos Estados que fazem fronteira com Paraná e Mato Grosso do Sul.

A Fundação Arias estima o volume do tráfico de armas a partir das estatísticas oficiais, considerando, por exemplo, que em dois anos foram apreendidas 20 mil armas introduzidas ilegalmente no Brasil através de Ciudad del Este, na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Esse tipo de comércio estende-se a Salto del Guairá e Pedro Juan Caballero, ambas cidades paraguaias.

Nestas regiões há muitas lojas que vendem armas legalmente. Elas podem ser adquiridas com facilidade por qualquer pessoa, apenas com apresentação da cédula de identidade e, às vezes, nem mesmo isso, para depois introduzi-las ilegalmente no Brasil.

No mercado clandestino de Ciudad del Este é possível comprar pistolas 9 mm, 357 Magnum, escopeta calibre 12, fuzis, revólveres e munições, além de armas automáticas ou de combate, de venda proibida e uso proibido a civis, como fuzis de assalto, metralhadoras Uzi, e até metralhadoras antiaéreas roubadas das Forças Armadas do Paraguai ou da Argentina.

As armas adquiridas legalmente nas lojas de Ciudad del Este, por exemplo, cruzam a fronteira levadas no bolso por mototaxistas em diversas viagens diárias até Foz do Iguaçu pela ponte da Amizade, onde não há uma fiscalização rigorosa. Já as cargas maiores, especialmente de armas automáticas compradas no mercado negro, requerem mais logística para cruzar a fronteira.

Essas cargas mais valiosas fazem a travessia do rio Paraná à noite, em lanchas que partem dos numerosos portos clandestinos nas duas margens, ou pelo lago de Itaipu, onde também há dezenas de portos clandestinos dos dois lados da fronteira.

Elas costumam ser envoltas em embalagens de plástico preto, com outras cargas de cigarro, drogas ou produtos eletrônicos.

Luis Rojas, que até semana passada era ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) do Paraguai, diz que a triangulação do tráfico de armas envolve outros três países: a Bolívia e a Argentina, onde as armas são roubadas do Exército e da polícia, e os Estados Unidos, onde armas pesadas são de livre venda para uso civil.

LEGIÃO DO TRÁFICO

O Brasil indiciou 20.271 pessoas por tráfico de drogas entre 2010 e 2015, conforme dados da Polícia Federal. Não por acaso, a maior incidência ocorreu nos três Estados que servem de corredor de passagem da droga e, disparado, no maior mercado consumidor do país.

Destino da maior parte dos entorpecentes vindos do Paraguai, o Estado de São Paulo responde por um quarto de todos os indiciamentos (5.150 pessoas). Depois vêm os Estados por onde passam a droga: Mato Grosso do Sul (2.531), Paraná (2.399) e Mato Grosso (1.190). No mesmo período, 2.418 pessoas foram indiciadas no Paraguai por tráfico, segundo a Secretaria Nacional Antidrogas.