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COMUNIDADE IGUALITÁRIA

Membros de comunidade dividem salário e renunciam sexo por vida igualitária

Zanone Fraissat/Folhapress

LAURA LEWER
LEONARDO NEIVA
MARCO LEMONTE
THIAGO AMÂNCIO
DA EDITORIA DE TREINAMENTO

Ao redor de uma mesa de madeira com seis lugares, Mila, Andreia, Roseli e Ana Virgínia fazem as contas do mês. Elas não são parentes, mas vivem na mesma casa e dividem tudo que ganham, apesar de estarem juntas há apenas três meses.

As quatro mulheres ocupam uma casa confortável, de três quartos, gramada, sem muros, que é um "focolare". A palavra, que significa lareira em italiano, tem a mesma raiz de "lar".

A casa fica na comunidade Mariápolis Ginetta, em Vargem Grande Paulista, a apenas 48 km de São Paulo. O lugar, que lembra um condomínio de classe média alta sem os aparatos de segurança, reúne 300 pessoas que decidiram viver de forma mais fraterna, inspirados em passagens da Bíblia que pregam o não acúmulo e a comunhão de bens.

Para viver ali, a pessoa pode aderir totalmente ao movimento, o que implica fazer voto de pobreza, obediência e castidade (os consagrados), ou apenas compartilhar os ideais (não consagrados).

Além das 41 casas, o condomínio conta com uma igreja, um centro de mídia, que produz vídeos das atividades da comunidade, uma padaria e uma editora, que publica uma revista mensal não religiosa, com tiragem de 22 mil exemplares.

CONVIVÊNCIA

Pequenos desentendimentos no dia a dia são normais, dizem as moradoras. "Não é que todo mundo fica igual porque a gente vive em comunidade. Conflito faz parte", diz a engenheira Maria Emília de Paula, 53, a Mila.

O salário dela e o das três companheiras são somados e usados, primeiro, para pagar despesas essenciais, como comida, telefone, água e luz. Depois, elas analisam as necessidades individuais. "Às vezes, naquele mês, falta sapato para uma, para outra, falta o vestido", diz Roseli.

Apesar de ter escolhido esse modo de vida, a educadora Andreia pensou em largar o movimento depois de se interessar por uma pessoa. "Deixei o focolare por 11 meses e voltei para casa. Mas ficou claro que eu tinha que entender qual era a vontade de Deus, não a minha vontade", diz a socióloga Roseli Pimentel, 52.

Todas dizem que o voto de castidade não representa grande dificuldade. "A gente nem pensa se faz ou não falta. Nunca coloquei isso em questão", diz Mila.

A engenheira, assim como Andreia, já pensou em deixar o movimento, no período em que viveu nas Filipinas. "Em um certo ponto, questionei e comecei a pensar se não tinha perdido os melhores dias da minha vida." Ela conta que percebeu que seu lugar era mesmo ali e nunca mais teve dúvida.

DEUS

Embora o catolicismo seja muito presente, os focolarinos dizem que a comunidade é aberta a todas as religiões. "O movimento nasceu dentro da Igreja Católica, durante a Segunda Guerra Mundial, mas teve a adesão, com o tempo, de cristãos de outras religiões, judeus, muçulmanos, budistas e pessoas sem religião", diz a focolarina e teóloga Sandra Ferreira.

O teólogo e professor da PUC-SP Antonio Marchionni afirma que os focolares têm grande aceitação dentro da Igreja. "Os sumos pontífices, desde Paulo 6º e João Paulo 2º, antes de fazer uma viagem, sempre acionavam o movimento para preparar o terreno para sua chegada", conta.

A deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) é ligada ao movimento e já fez vários discursos na Câmara ressaltando suas qualidades.

TRABALHO

Muitos moradores da comunidade Ginetta trabalham no polo empresarial Spartaco, que reúne sete companhias, a uma distância de apenas um quilômetro.

As empresas, de setores diferentes como construção civil, nutrição e produtos de limpeza, são adeptas da "economia de comunhão", uma das diretrizes dos focolarinos.

O lucro é dividido em três partes: a primeira é investida na própria empresa, a segunda é aplicada na formação de novos agentes e a última é destinada aos projetos sociais dos focolares.

"Temos que gerar lucro, a empresa também compete no mercado e passa pelas mesmas dificuldades que as outras. Se nós não tivermos o lucro, não temos o que dar", diz o empresário Nailor de Assis Peters, 48.

Membro não consagrado do movimento, Peters é sócio da Uniben Fomentos e da Controlar Corretora de Seguros. Segundo ele, o grande diferencial dessas empresas é a satisfação pessoal dos sócios e dos funcionários.

"Sempre se fala em dar o peixe e ensinar a pescar", diz o focolarino Klaus Brüschke, 55. "A economia da comunhão tenta dar um passo adiante: gostaria que a gente pescasse junto e comesse junto o peixe pescado".