Cidade

'Meu sonho é ver a rua toda limpa, o país todo limpo", diz Maria Luiza, 11

PAULO SALDAÑA
DE SÃO PAULO

Maria Luiza quer mudar o país. Pelo menos é o que diz em relação a problemas como lixo, poluição, trânsito e insegurança –temas que ela demonstra vivenciar no dia a dia. "O país não está limpo. Eu posso até tomar um banho, mas eu me sinto suja", diz ela ao discorrer sobre a sujeira da ruas.

Aos 11 anos, Maria Luiza Souza Nunes está no 5º ano na escola estadual Deputado Luiz Sergio Claudino dos Santos, na Brasilândia, zona norte da capital. O prédio fica em uma ruela apertada, cercado de casas simples, algumas sem reboco. Uma região com raríssimas praças e distante de parques.

Mora no Jardim Carombé, próximo à escola, com a irmã de 4 anos, a mãe, que trabalha com bicos, e o pai segurança. O acesso à cidade, urbanismo e habitação foi o conjunto de temas escolhidos para a entrevista.

Ela revela uma consciência detalhista. Ao explicar seus pontos de vista, faz questão de pontuar cuidados. É preciso colocar o lixo nos sacos, mas "amarrar bem". Os carros têm que ser aposentados, em favor das bicicletas, mas o combustível deve ficar longe do alcance das crianças "ousadas".

Busca realizar o sonho da mãe, que é comprar uma casa para sair do aluguel. Maria Luiza diz gostar da região onde mora, mas não se sente bem para brincar na rua. "Não vou dizer que é muito bonito porque não é. É um pouco bonito, tem som, mas o som tem que ter um limite."

Você gosta de estudar? Acha importante?
É importante porque você vai ser alguma coisa na sua vida quando você crescer. Mas o meu sonho é ser jornalista e policial.

Por que os dois?
Policial acho legal, policial ensina o que pode e o que não pode. E, assim, quando somos jornalistas, a gente ensina, fala o que vai acontecer e o que não vai, o que já aconteceu.

Mas qual a indicação você teve pra saber que é legal ser jornalista?
Foi na televisão e internet, e ensina também, igual a você, o seu papel, ensina muuuito Bem, gostei. E na televisão fala o que vai acontecer, o que está pra acontecer. Tipo: presente, futuro e passado.

E policial? você conhece?
Conheço, o professor de Proerd [Programa Educacional de Resistência às Drogas e à violência, da Polícia Militar, que esteve na escola dias antes da entrevista]. Ele ensina bastante, teve vezes de puxar um pouco no pé, mas é bom. Pra você poder crescer, aprender, ser alguma coisa na vida e ter orgulho de você mesma.

No seu bairro tem muita violência?
Lá tem muita violência. Igual ontem, quando cheguei da igreja tinha a Rocam e aquele helicóptero da polícia rondando. A Rocam brigando com o rapaz pra ele descer, se não já ia partir pra agressão. E o rapaz ia buscar o cachorro. Mas era desculpa pra escapar, não ir pra casa. Mas depois estavam os que trabalhavam na biqueira. Porque lá onde eu moro tem. Uma lá no fundo, uma aqui na frente, uma do lado. Ai tem muitas biqueira e lá onde acontece bastante violência, briga, mas é só. Lá também mora um policial que eu conheço. Ele é legal, não é igual os outros policiais que partem pra agressividade. Ele entende, mas tem vezes que tem de partir pra agressividade, ele querendo ou não, porque esse é o trabalho, é a função dele.

É muito comum essa agressividade?
Vi ontem, presenciei. Minha irmãzinha ficou assustada, mas depois se acostuma. Ao correr do dia tem que aprender o que é, o que não é, o que não pode. Como: fumar é uma das coisas que não pode meeeesmo. O professor de Proerd ensinou o que pode, o que não pode. Principalmente bebidas alcoólicas. Não pode. Vai estragar todo seu corpo, seu fígado, seu coração, tudinho. Ai vai afetando.

Eduardo Knapp/Folhapress
Sao Paulo, SP, BRASIL, 05-09-2017: Especial Superpauta Criancas. Serie de entrevistas com criancas. Aluna Maria Luiza Souza Nunes, 11 anos, mostra desenho seu feito na escola. Ela cursa o 5o ano do colegio Estadual Dep Luiz Sergio Claudino dos Santos (na Brasilandia) (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, ESPECIAIS).
Maria Luiza mostra um de seus desenhos feito na escola

Sobre as pessoas que bebem, usam drogas, que ficam na biqueiras. Como você acha que dá pra resolver esse problema?
Ai eu não sei Eles acham que isso é a vida deles, eles ganham mais dinheiro, que essa é vocação deles. Conheço uma pessoa que trabalha lá. Eu perguntei pra ele, sou muito de perguntar: Mas por que você gosta? Ele fala 'todo mundo gosta, porque ganha mais dinheiro, é mais fácil'. Ai eu falei, 'não é mais fácil você fumar, estragar sua vida com porcarias'. Uma coisa que não é adequada pra gente, pro nosso organismo. Mas ele falou que gosta porque ganha mais dinheiro, mais aumento. Eu falei 'se você fumar você não ganha. Pode até ganhar um aumento, mas sua saúde vem em primeiro lugar'. Fumar, beber, fazer coisa errada, não é bom.

Muita gente faz isso por aqui?
Na minha rua faz, bastante. E vem bastante gente pra comprar. Eu acho um absurdo, porque é bem na minha viela. Se eu pudesse eu mudaria muito isso. Mas eu sei que tem algumas drogas que ajudam também na saúde. Disso eu sei, tipo câncer, esse tipos de câncer. Como meu vô. Não vai curar ele, por que? Porque ta avançado, ele não quis se cuidar,é uma tristeza, ele ta magrinho, mas fazer o que?

Você sabe qual tipo de droga ajuda no câncer?
O tipo de droga eu não sei. Mas passa bastante na televisão os tipos de droga, vem até embalado assim. Só que eu mudaria muito as drogas que fuma, que faz coisa errada. Mas as drogas que faz bem à saúde, tuuudo bem. Agora as drogas que não faz bem, como bebida alcoólica, eu tiraria. Bêbado só causa prejuízo, igual aconteceu na minha rua. A mulher do policial que mora lá estava bêbada e o som estava mas super alto. Ela pediu com delicadeza pro cara abaixar, porque o bar é perto, não queriam abaixar e era a noite inteira, até o amanhecer. Ai nesse dia ela estava bêbada, estava chorando, ela estava deprimida. Pegou a arma. Só que o tiro não garrou em ninguém, só foi pro alto. Pegou, sim, na parede, mas não matou ninguém. Mas não foi porque ela quis, foi a bebida. Eu tiraria, sim, as bebidas, as drogas que faz o mal, porque as pessoas não vão saber o que estão fazendo ali, vão ficar alucinadas. As pessoas têm de saber o limite de beber. Como minha vó, ela sabe o limite dela. Eu queria, se eu pudesse, se fosse a lei, eu tiraria as bebidas, até o cigarro, tiraria porque faz muito mal.

O que seus pais fazem?
A minha mãe não trabalha, faz bicos, mas meu pai trabalha. Ai os dois se ajudam. Como meu cachorro morreu, ficou um pouquinho apertado. Levou ele no veterinário, tentou animar ele, ia entubar e foi na hora que ele se foi.

Gastou muito dinheiro?
Gastou, só que está sendo muita tristeza, porque o cachorro sempre me acordava pra mim abrir o portão para minha mãe quando ela chegava. Uma tristeza, eu tenho, sim, a foto dele no meu celular. Ele se chamava Luck, era bem bonitinho, só que como ele se foi Ele era pequeno, ele não cresce não. Era uma raça misturada com york e uma outra racinha que eu esqueci. Meu pai disse passar um momento, quando as coisas desapertar, ele vai comprar um igual ao Luck. Mas não vai ser a mesma coisa, vai dar uma aliviada, mas não vai ser a mesma coisa, porque ele sempre latia pra me acordar.

Você mora num lugar bonito?
Lá é um pouco bonito, não vou dizer que é muito bonito porque não é. É um pouco bonito, tem som, mas o som tem que ter um limite. Lá a única coisa que eu queria é que a rua fosse limpa, porque, quando a gente passa, a rua está cheia de sujeira, principalmente quando chove, entope os bueiros tudo. O ar, o oxigênio, né. Eu mudaria muito isso, compraria até uma lixeira, mas como tá apertado, não dá. Mas eu compraria, sim, uma lixeira pra cada um, seu eu pudesse.

Você acha que tem muito lixo na rua porque as pessoas não têm lixeiras?
Ter, tem, mas não tem aquele cuidado da pessoa que sabe que tem que ter. Não tão nem aí, joga o lixo em qualquer lugar. Pode dar dengue, pode dar uma coisa que afeta a saúde. Eu fico com nojo, mas a gente varre, cuida. Principalmente minha mãe. O pessoal perto de casa são cuidadosos, mas tem pessoas que não são.

Como conscientizar essas pessoas? Já tentou falar com elas?
Tentar, tentamos avisar, 'não joga lixo, tem lixeira na sua casa', ou então leva uma sacola guardada pra botar lixo. Tipo, quando a gente vai viajar, sempre levo uma sacolinha. Como vai em ônibus, suja o ônibus e eu não gosto disso. Ai eu levo sacolinha a mais pra dar pro outros, pra quem não tem, pra poder botar o lixo. Porque todo mundo está respirando o oxigênio de todo mundo. Eu fui pra Bahia, pra ver minha vó, mas como ela morreu, vamos para o Espírito Santo, conhecer as minhas familias que eu não conheço. Tem pessoas que até conheço porque eu tenho celular e tenho o contato, mas como tô sem internet, não dá pra estar conversando. Mas só tenho poucas pessoas no celular porque é perigoso. Não pode estar postando muita coisa de criança. Sabe como é a ousadia. Fizeram isso com uma vizinha minha, uma ousadia ousada. O homem pediu até pra ela xingar ele. E foi esse homem que apareceu do nada no Facebook.

Eduardo Knapp/Folhapress
Sao Paulo, SP, BRASIL, 05-09-2017: Especial Superpauta Criancas. Serie de entrevistas com criancas. Retrato de Maria Luiza Souza Nunes, 11 anos. Aluna do 5o ano do colegio Estadual Dep Luiz Sergio Claudino dos Santos (na Brasilandia) (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, ESPECIAIS).
Aos 11 anos, Maria Luiza sonha em ser jornalista e policial (para ser professor de Proerd)

Ela é criança?
Não, não, ela já é adulta. Mas como ta tendo esses roubo de crianças é muito ruim. E minha mãe fica muito em cima do meu pé, fica olhando o celular, ela olha quem eu tenho e quem eu não tenho.

Por que você acha que sua mãe faz isso?
É bom ter um adulto por perto vendo o que você posta, o que você comenta, o que faz. Porque nunca se sabe se aquela pessoa é maldosa por dentro. Que nem minha mãe explicou: tem estuprador, tem quem rouba as crianças, essas coisas. Passa também na televisão pra discar 100 ou se não zero pra ligar pra polícia. Só que como minha mãe já me ensinou, eu já sei dessa parte. Ela diz que não pode, se um estranho der um doce, mas eu não gosto muito de doce, estraga o dente.

Você acha que é mais perigoso ficar na rua ou na internet pelo celular?
Na rua e no celular ao mesmo tempo. Tem coisas no celular que é perigosa. E tem coisas na rua que também é muito perigoso, pior que no celular.

Você gosta de brincar na rua perto da sua casa?
Eu só brinco quando tem alguém da minha família por perto. Mas não fico muito porque eu não gosto muito de rua. Tem muito lixo, tóxico, um monte de coisa que eu não gosto, não me sinto muito bem naquele lugar.

Não tem uma praça perto?
Até tem, mas não tem parquinho. Só tem uma praça com rochas pra sentar. E é sujo. Porque os meninos da biqueira acabaram fazendo um desastre. E as árvores estão morrendo, queimadas, que é tóxico e vai até minha casa e eu sinto o cheiro. Mas lá em casa tem aquele negócio de oxigênio e a gente usa pra não sentir aquele ar poluído, principalmente dos carros.

Tem muitos carros por aqui?
Tem muito carro. Fora a gasolina, porque o que sai debaixo do carro, aqueles vapor, intoxica tudo, dá aquele o cheiro ruim. Você também vai ser prejudicada. E também a poluição vai aos poucos poluindo mais. Aqui já está ficando doente.

Você acha que precisaria diminuir o número de carros no seu bairro? Como faria?
Eu diminuiria todos os carros. Eu botava placa, falava, explicava o motivo, porque tudo tem o seu motivo, sua hora e seu momento. Se eu fosse uma jornalista mesmo eu ia explicar na televisão e em todo lugar. Algumas pessoas até entendem e param de andar de carro, sim. Tira o combustível, guarda o combustível num lugar bem seguro, fora de alcance de crianças. Porque tem criança que é ousada, danada, quer botar fogo na casa. E não pode, tem que esconder. Eu falaria muito pra parar de andar de carro e andar a pé. Faz bem à saúde.

E para quem trabalha longe, vai a pé também?
Não porque ai vai cansar. Mas faz bem. Compra um bicicleta, faz bem também andar de bicicleta. Meu pai mesmo, ele gosta de andar de bicicleta, vai até na chuva, mas faz mal. Ele vai de bicicleta até o trabalho dele. Eu já fui lá, não sei o nome do lugar, mas é bem longe. Nós fomos buscar uns brinquedos que ganhamos. Utilização, sabe? De vez de comprar, ganha. Porque comprar vai gastar mais, e já está um prejuízo lá em casa. Assim, eu compraria uma bicicleta, uma mochila assim de costas e ia de bicicleta. Igual meu pai. E falava, mandava uma mensagem: 'vou chegar essa tal hora', vou devagarzinho. Ou, se não, vou rapidinho, mas vou respeitar o semáforo. Porque tem de respeitar, se não acontece aqueles negócios que já aconteceu de bicicleta.

Você tem bicicleta?
Eu tenho, mas minha bicicleta já se foi. Eu ganhei essa bicicleta de uma amiga da minha mãe. Ela não estava muito da boa, mas eu quis. É dada de coração, né. Eu gosto também de coisas dadas com corações mesmo. Ai eu quis, meu pai tentou consertar. Tem conserto, mas vai ser um prejuízo maior do que o do veterinário do cachorro.

Tem parques aqui perto?
Ter, tem, na primeira parte do carumbé. Tem balanço, gangorra, negócio de fazer ginástica, mas só é pra criança maior de 12 anos. Agora de 11 não, não pode.

É parque ou praça?
É uma pracinha, pro pessoal ficar se movimentando, fazendo ginástica, e as crianças ficar brincando, tem balanço, gangorra, mas não tinha escorregador. E também perto da minha casa, vamos descendo [ela explica o caminho todo] e ali já chega num parque que tem escorregador e alguns brinquedinhos a mais, e uns negócios de ginástica para os mais velhos. Ali é bom, mas eu daria minha opinião: eu botaria mais brinquedo, porque as crianças gostam de brinquedo, principalmente a minha irmã.

Eduardo Knapp/Folhapress
Sao Paulo, SP, BRASIL, 05-09-2017: Especial Superpauta Criancas. Serie de entrevistas com criancas. Quadra de esportes colegio Estadual Dep Luiz Sergio Claudino dos Santos (na Brasilandia )onde estudam os alunos Wesley Vinicius O. Silva e Maria Luiza Souza Nunes, ambos de 11 anos (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, ESPECIAIS).
Quadra da escola estadual Dep. Luiz Sergio Claudino dos Santos, na Brasilândia, zona norte, onde Maria Luiza estuda

Você já ouviu falar de outros parques, como o parque do Ibirapuera? Você já foi?
Já ouvi falar, mas não, nunca fui porque não tenho tempo e também não tenho dinheiro por enquanto pra ir. Mas se eu tivesse, eu ia. E eu também queria ir nesse parque que vai ter na escola, só que como está apertado, é 90 reais, mas não sei o nome. Só que é um parque muito bom, que tem piscina. Só que eu queria passar uns dias lá, pra descansar um pouco.

Qual foi o lugar longe que você foi na cidade? Como avenida Paulista, centro...
Já fui no centro. Fui comprar uma revistinha pra fazer o trabalho da escola, porque vou fazer a espada pra gente brincar na educação física. Fui ver a revista, mas queria jornal. Mas eu não lembro mais o lugar, faz um pouquinho de tempo. Fui comprar porque foi utilidade, só que eu paguei. Depois eu perguntei pro moço: você tem resto pra levar? Pra eu levar pras pessoas que não tem. É bom utilizar papel, só não pode jogar no lixo. Eu não gosto, porque a gente pode utilizar algum dia, qualquer ano. Não sabe o momento, tipo passado, presente e futuro e adiante. Eu estava com chinelo bom esse dias, ai eu dei, mas foi por uma boa causa. Só que o meu quebrou, não foi querendo. E eu precisava tanto de um chinelo, mas eu tinha dado. A menina estava sem também, aí foi por uma boa causa.

Por que você deu o chinelo? Você gosta, acha legal, fazer o bem para os outros?
Eu dei para uma menina que não tinha muitas coisas, não tinha nem brinquedo. Eu doei. Vou doar ainda brinquedos. Dei o chinelo pra ela porque a mãe dela estava com uma dificuldade maior que a minha vida. Ela estava andando descalça e é muito perigoso. Eu dei mais por causa da saúde do pé, porque tem caco de vidro e pode pegar na veia do pé. E ai dei por uma boa causa. Doeei brinquedo que eu tinha porque eu tenho bastante, e ainda vou doar mais. Só sobrou uma caixa, ta bom. Eu não brinco muito, só fico assistindo, fico lendo, porque lá na minha casa tem bastante livro. É uma das coisas que eu não quero doar pra ninguém, porque eu leio, releio.

Qual foi o último livro que que você leu e gostou?
Conto de fada da Cinderela, o da Mônica, que é um dos meus preferidos. Tenho também um livro desse tamanho, de gramática, que está com a professora, e um desse tamanho de conto de fadas. Ai fico lendo o livro de conto de fadas para minha irmã quando ela vai dormir. Como ela não consegue, ai eu conto.

Você prefere ler livro ou ficar na internet?
Ler livros. Antes eu não gostava de ler, mas ai a professora deu uns puxão de orelha na minha mãe e minha mãe me deu. Agora estou lendo, mas meu livro de gramática está com minha professora. Assim, podia fazer igual minha amiga: to nem ai, emprestei pra professora e não vou ler mais nenhum livro. Ela não tá tendo importância do quanto ela tem livro e quanto ela pode ler. Ler abre a mente, fortalece, faz você ter a leitura mais rápida, prática, mas eu estou com um pouquinho com dificuldade.

Quais matérias você mais gosta?
Matemática, história, português, geografia, são as minhas preferidas

Eu já ouvi falar que meninas não gostavam muito de matemática. Por que você gosta?
Eu gosto, eu sou diferente das outras meninas que gostam de português. Algumas tem sua opinião, outras gostam de português, matemática, geografia, história e língua portuguesa. Matemática ensina você fazer uma divisão. Tipo na sua casa, você vai ter que fazer uma divisão. E pra você chegar aqui, você vai fazer, vai saber, quando tiver vindo pra cá, quantos metros tem pra chegar. Pra quando crescer e ser jornalista ou o que você quiser ser, ser mais prático pra você, já vai ta sabendo. Você pode até contar pelos pés, pelo tamanho, mas você também pode calcular mental se você quiser.

O que você acha que é notícia?
Assim, acontece os roubos, essas coisas, isso é uma notícia. Só que, pra mim, uma notícia é explicar o que é uma notícia. Na televisão só fala o que é uma notícia, não explica. A internet já explica o que é uma notícia e explica o que aconteceu. A internet mostra muito mais do que a televisão. Ai eu prefiro a internet porque explica muito mais. Mas eu assisto a TV muito porque ela ensina o que vai acontecer amanhã e depois, igual eu te expliquei.

Mas tem mais coisas ruins ou boas?
Tem bastante coisa ruim, mas tem bastante coisa boa. Um pouquinho de cada é bom.

Você lembra de alguma notícia ruim que te marcou?
Ruim é os roubos que está tendo, que eu não gosto desse tipo de coisa. As pessoas que roubam, 'trabalha!' Tipo, 'meu filho, você trabalha, você não rouba'. Com seu dinheiro você vai ter alguma coisa, vai ser alguma coisa na vida. Você vai pagar sua contas, comprar sua coisinhas. E se sobrar, ainda, você pode até sair. Mas não beber, essas coisas. Só que eu mudaria também esses tipo de roubo, botaria polícia em todo canto desse país. Até no Paraná.

Até lá?
Paraná, Pará, um monte de país. Eu botaria em tudo.

Eduardo Knapp/Folhapress
Sao Paulo, SP, BRASIL, 05-09-2017: Especial Superpauta Criancas. Serie de entrevistas com criancas. Sala de aula do 5o ano do colegio Estadual Dep Luiz Sergio Claudino dos Santos (com vista para o bairro Brasilandia )onde estudam os alunos Wesley Vinicius O. Silva e Maria Luiza Souza Nunes, ambos de 11 anos (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, ESPECIAIS).
Sala de aula do 5º ano onde Maria Luiza estuda, na escola estadual Dep. Luis Sergio Claudino Santos

Por que o Paraná especificamente?
Tem Estado que está pior que São Paulo e falam que São Paulo está pior. Ai eu botaria polícia. Como lá no Rio, está super pior que São Paulo. E estão falando que São Paulo está pior que Rio de Janeiro. Pior, sim, passou na televisão, que lá ta piorando cada vez mais. Porque lá já sabe, nós pode até ser pobre, mas tem pobre que também já partiu pra agressão.

O que você queria conhecer aqui em São Paulo que ainda não conheceu?
Os parques, todos eles. Eu nunca fui em um parque que tem piscina essas coisas, nunca fui em nenhum parque porque meu pai e minha mãe não tá em condições, como somos pobres Mas, assim, eu queria ser popular. Tipo a Larissa Manuela. Minha prima tem um amigo que foi escolhido, eu pedi pra ela tentar o contato, pra eu conseguir ajudar meu pai e minha mãe. A construir a casa que minha mãe tanto quer.

Mas como ele poderia te ajudar e você ajudar sua mãe?
Assim, eu ia conseguir um trabalho muito bom, tipo ser artista e cantora. Porque eu sei cantar, eu canto na igreja. Eu tenho um pouco de vergonha, mas vai. Assim, alguma coisa assim referente. Porque: 'tá apertado pra minha mãe? Tá'. Mas eu posso conseguir a casa do sonho dela e conseguir o sonho do meu pai, que eu não sei o que é, ainda vou perguntar pra ele porque eu sou super curiosa. O sonho da minha mãe é ter uma casa. Limpa, bonitinha, porque a casa que a gente tem não é muuuito bonita, é pequenininha. E como a gente paga aluguel fica mais apertado ainda. Eu vou conseguir o sonho da minha mãe, se Deus quiser, eu acredito em Deus. Deu ajuda muito.

Mas quando você vai ajudar? Quando crescer?
Não, agora mesmo, não tem problema a idade. Porque ela fala muito dessa casa, e eu gostaria de sair do aluguel. E ter a casa própria.

E qual é o seu sonho?
Meu sonho... vixi, vai ser difícil. Porque eu tenho cada sonho maluco. Mas eu tenho: sabe aquela tirolesas, que cai assim na piscina? Ai, aquele é meu sonho, cair por ali. Mas eu vou ter que estar segura, com aqueles negócios pra não cair na água com tudo e acontecer alguma coisa. Mas aquele é meu sonho, sou super doidinha, igual a minha mãe. Gosto de sonhos realistas e também maluquinhos, até demais. E ir nos parques também, nos parques que se arrisca, não com a própria vida, fazer um movimento, uma brincadeira bem legal, que se arrisca. Esses são meus sonhos bem doidinhos, mas são meus sonhos. Meu jeitinho.

Como você se vê depois de sair da escola, quando tiver 17 ou 18 anos?
Eu vou fazer uma faculdade pra ser jornalista, depois vou ser jornalista. E depois vou fazer uma outra faculdade pra ser professor de Proerd, policial. Se eu conseguir realizar meus sonhos até lá, não sei o que vai acontecer no presente, e conseguir meu trabalho mesmo, vou realizar o sonho do meu pai e da minha irmã.

Você queria falar alguma coisa que eu não perguntei?
Sim. Eu queria mudar o país. Mudar tudo que tem aqui, tudo. Queria parar com esses negócios de carro, que já polui muito. Os lixos que ficam na rua. Porque eu sei que tem gente que trabalha duro pra tirar, lavar e ainda gasta água. Que o país já não tem, tá tendo, mas já não tá tendo muito. Ainda gasta água. Eu queria mudar muito essas coisas. Eu sei que tem lixeiro que pega lixo, mas tem alguns que deixa resto. E também não é culpa dos lixeiros, nós mesmos temos que tomar conta das sacolas. Eu falo pra minha mãe colocar duas sacolas. Se for segura, igual aquelas de ração, bem segura, pode deixar ali. Mas amarra bem, se tiver pelo menos uma lixeira daquele tamanho que da pra todo mundo botar seu lixo e não sobrar resto. Eu colocaria isso, limpava as ruas, nós todos, todo o país. Igual minha mãe, ela reutiliza a água, menos a água do banho porque isso não pode e é próprio seu. Você joga a água lá mas não pode deixa ir pro bueiro. Porque o país não está limpo. Eu posso até tomar um banho, mas eu me sinto suja. É isso que o país está. Isso tudo, o formato todo, está tudo sujo. Principalmente as águas do esgoto ir para as águas limpas, acho isso um absurdo. Porque eu vejo passar na televisão, não é porque não vejo, eu vejo. É um absurdo você estar lá na sua casa, lá no lugar que tem rio, e vem aquele esgoto fedido, se mistura com água limpa. Ai da dengue, vira água parada. Minha opinião é mudar tudo isso. Ver se o país quer mudar, mas, querendo ou não, tem que mudar. Porque é bom para saúde do país e para nossa saúde. Vai fazer bem ao nosso país. Sentar num lugar que está limpinho. Não vai estar cheiroso, mas vai estar limpinho pelo menos.

Cheiroso não dá pra garantir?
Mas vai estar limpinho, varridinho. Tipo essa sala [da escola]. Você vai estar pensando assim, vai até tocar [ela passa mãe no chão], 'nossa, como está limpo, está tudo bem limpinho por aqui'. Esse foi meu sonho, ver a rua toda limpa, o país todo limpo. Conservado. Parar de andar de carro, parar de usar coisas tóxicas. Tem coisa que é pra nossa saúde, tem coisa que não é e tem coisas que a gente utiliza. Não pode parar o que a gente utiliza porque se parar, o mundo também para.