7 A 1, um ano depois

Bastidores da derrota

Seleção temeu 10 a 0 e viu constrangimento de alemães

BERNARDO ITRI
DO PAINEL FC
MARCEL RIZZO
DE SÃO PAULO

26 de junho de 2013, semifinal da Copa das Confederações. Num Mineirão lotado, o empate em 1 a 1 entre Brasil e Uruguai levava a decisão para os pênaltis.

Aos 18 minutos do segundo tempo, Luiz Felipe Scolari sacou Hulk e colocou Bernard. Àquela altura ninguém entendeu a escolha -Lucas, do PSG, era o favorito para entrar. Mas a explicação não estava em campo e, sim, na arquibancada.

A entrada da revelação do Atlético-MG inflamou a torcida local do Mineirão e serviu como um empurrãozinho para que a seleção brasileira avançasse à final.

Um ano depois, na semifinal da Copa do Mundo no Brasil, Felipão usou a mesma receita. Em uma tentativa de golpe emocional, escalou o mineiro Bernard para substituir ninguém menos que o craque do time, Neymar, que fora cortado do Mundial.

A opção, essencialmente motivacional, contrariou as indicações de seus auxiliares, que pregavam a escalação de Willian ou de Ramires, jogadores com características mais defensivas que Bernard.

Mas, como o Brasil era tecnicamente inferior à Alemanha, Felipão imaginou que a torcida seria fundamental para levar o time à vitória.

O problema é que a Alemanha não era o Uruguai, e Bernard já não era o mesmo de 2013, mas um atacante em fase ruim no futebol ucraniano, e que havia apenas uma vez, por menos de 10 minutos com o time titular.

A questão motivacional pesou tanto na preparação para o jogo que membros da CBF cogitaram até montar uma megaoperação para levar Neymar ao Mineirão.

A ideia era que a presença física do craque, no banco de reservas, levantasse o ânimo dos atletas.

Para que isso se concretizasse, se cogitou fretar um avião com equipamentos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) que transportasse o jogador do litoral paulista para Belo Horizonte.

Mas a dificuldade em realizar essa operação somada fez a ideia ser abortada.

TEMOR POR 10 A 0

Antes da partida, Felipão mostrou aos jogadores ao menos seis vezes imagens das jogadas aéreas da Alemanha, especialmente de cobranças de escanteio, para vacinar o time dessa arma rival.

Não funcionou. O primeiro gol alemão sai após cobrança de escanteio e fácil finalização de Muller.

A partir de então, houve o chamado "apagão" da seleção brasileira. No camarote reservado à CBF e aos cartolas alemães, a sensação era de constrangimento. Dos dois lados.

Os alemães, incrédulos com o que viam, se sentiram desconfortáveis em comemorar muito efusivamente. Diziam aos membros da CBF: "I don't believe" (em português, "Eu não acredito"), em tom de timidez.

No intervalo, com 5 a 0 no placar, o clima no vestiário também era de perplexidade.

Um silêncio sepulcral pairava entre os jogadores. Fred, um dos mais experientes e também um dos mais criticados àquela altura da Copa, foi o único que falou.

Não havia reclamação nem sonhos mirabolantes de reverter o resultado. O pedido era por gols, para diminuir o vexame.

Carlos Alberto Parreira, o coordenador-técnico da seleção brasileira, falou mais do que Felipão. Pedia cautela, imaginando que a Alemanha não pararia de atacar e prevendo um placar mais dilatado. O que era 5 a 0 poderia virar 10, temia.

Questionado pela Folha sobre a conversa no intervalo, Parreira preferiu não comentar.

"O que acontece no vestiário, não se fala fora dele", afirmou.

MEDO DE REVOLTA

Antes do apito final, o então presidente da CBF, José Maria Marin, desceu ao vestiário para esperar os jogadores e a comissão técnica.

O cartola, ao lado de aliados, achava que tinha a missão de ressuscitar a equipe, pois havia mais um jogo pela frente: a disputa pelo 3º lugar.

Marin tentou reanimar os jogadores. Sem sucesso. Relatos que quem frequentava o vestiário da seleção brasileira há mais de uma década diz que nunca se viu um clima tão ruim e um silêncio mais latente do que o notado naquele 8 de julho.

Ao mesmo tempo, a direção da CBF passou a se preocupar com a segurança da delegação após o fiasco.

Já havia a ideia entre a direção da CBF e a comissão técnica de, em caso de vitória, tirar a delegação de Teresópolis nos dias que antecedessem à final.

A leitura era que o isolamento na cidade serrana do Rio, no momento decisivo, não faria bem ao time, que precisaria se contagiar com a empolgação da torcida.

Principalmente se o adversário fosse a Argentina -havia o temor de que o trauma do "Maracanazzo" tomasse o noticiário e que o isolamento em Teresópolis fosse prejudicial para os atletas.

Essa ideia, porém, não era consenso justamente por causa de 1950. Naquela Copa, um dos motivos relatados para na derrota foi o oba-oba pré-decisão, com políticos visitando concentração e torcida confiante demais.

A decisão, claro, nunca precisou ser tomada, e o time se isolou na Granja Comary na véspera da decisão do terceiro lugar.

Depois dos 7 a 1, por sinal, houve até conversas para aumentar a segurança na Grana Comary, temendo protestos de torcedores e tentativas de invasão -o CT da CBF fica em um condomínio de casas de alto padrão, onde o acesso não é tão restrito.

O temor não se concretizou.

Mas, em vez da violência temida, os jogadores tiveram de conviver com outra situação incômoda. As centenas de torcedores que acompanhavam diariamente o time sumiram. Foram poucas as pessoas que se arriscaram a ver o time na Granja depois do vexame.

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