Comemoração

Depois de ser recebido com festa em São Paulo, clube perde em Porto Alegre

NAIEF HADDAD
DE SÃO PAULO

O avião com a delegação do Corinthians aterrissou pouco depois das 12h30 do dia 6 de dezembro de 1976, uma segunda-feira, no aeroporto de Congonhas. Desde às 6h30, porém, já havia uma aglomeração no local.

Quando os atletas desembarcaram em São Paulo, eram cerca de 10 mil fãs reunidos dentro do aeroporto e nos arredores. Torcedores mais afoitos subiram em árvores, postes e até placas de sinalização para poder observar melhor os ídolos. Os vendedores ambulantes faturavam, vendendo refrigerantes e sanduíches pelo dobro do preço usual.

Entre os atletas, Wladimir era um dos que demonstravam mais entusiasmo com a vitória na semifinal.

"Agora vamos ganhar também do Internacional, ninguém segura este time", disse o lateral esquerdo à Folha na época, antes de entrar no ônibus que levaria os jogadores para o Parque São Jorge.

No mesmo dia que o Corinthians passou pelo Fluminense, o Inter havia derrotado o Atlético Mineiro por 2 a 1 na outra semifinal. Também em jogo único, a final do Brasileiro aconteceria no domingo seguinte, dia 12 de dezembro, em Porto Alegre.

O ônibus do clube passou por algumas das principais vias paulistanas, como a Rubem Berta, 23 de Maio, Tiradentes e Marginal Tietê, acompanhado por centenas de veículos de torcedores, que formavam uma carreata.

Aplausos e gritos vinham das janelas dos prédios, e os jogadores respondiam com acenos.

"Pelo menos 15 mil pessoas estavam na Fazendinha [estádio dentro do Parque São Jorge]. Não era um título, mas os torcedores comemoravam como se fosse", lembra Tobias.

Reprodução-14.dez.1976
Jogadores do Corinthians foram recebidos com festa no antigo estádio do clube, a Fazendinha, mesmo após o vice-campeonato
Jogadores do Corinthians foram recebidos com festa no antigo estádio do clube, a Fazendinha, mesmo após o vice

Àquela altura, aconteciam as articulações dos dirigentes corintianos para que o jogo tivesse o Morumbi como cenário, e não o Beira-Rio, como estava previsto. Os cartolas paulistas cogitaram até uma nova forma de arrecadação, que seria, segundo eles, vantajosa para os dois times. Além disso, contavam com o apoio do ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki.

O ministro tinha expressado preocupação com o alto gasto de combustível em um período em que o país passava por racionamento. Foram consumidos 2 milhões de litros de petróleo com a ida e a volta dos torcedores, segundo o ministro, que era corintiano.

Ele temia, portanto, uma nova invasão, desta vez rumo a Porto Alegre. A cúpula do Internacional, no entanto, não aceitou a transferência.

'É LUCRO'

Em meio à festa em Congonhas, a reportagem da Folha ouviu um torcedor chamado João Batista.

"Agora podemos até perder do Internacional. Tudo o que vier é lucro. Não faço mais questão de ser campeão. Eu só queria ver o time entrar na Libertadores e se vingar do Rivellino."

Pois, uma nova invasão não veio –não nas mesmas proporções do Maracanã. Tampouco veio o troféu de campeão.

O jornalista Igor Ojeda, autor do livro "A Invasão Corinthiana", lança algumas hipóteses para o número inferior –os jornais falavam em cerca de 20 mil corintianos no Beira-Rio.

A começar, pelo mais óbvio: de São Paulo a Porto Alegre, são mais de 1.000 km de estrada; entre a capital paulista e o Rio, menos do que a metade. Havia ainda o peso adicional que isso representaria no bolso dos trabalhadores.

Por fim, e talvez o fator mais importante: não houve entre as cúpulas de Corinthians e Inter a sintonia obtida entre o time paulista e o Fluminense. Um exemplo foi o número de ingressos cedidos pelo clube mandante ao visitante, que ficou muito aquém na partida de Porto Alegre em relação ao jogo do Rio.

Diante de mais de 80 mil torcedores, com ampla maioria de colorados, o Inter venceu o Corinthians por 2 a 0, com gols de Dadá Maravilha e Valdomiro. O resultado fazia justiça ao melhor time do campeonato, que tinha Paulo Roberto Falcão como maior estrela.

O Corinthians sairia da fila dez meses depois, em outubro de 1977, ao vencer a Ponte Preta por 1 a 0 no Morumbi.

MÃE E FILHO

A torcedora Marlene Hermann, que tinha vivenciado a catarse no Maracanã, não viajou a Porto Alegre. Havia levado uma bronca do médico pela aventura no Rio e não poderia colocar a gravidez em risco mais uma vez.

"Se o Corinthians tivesse sido campeão, talvez não estivéssemos falando agora da invasão ao Rio. Para nós, a invasão foi mais importante do que o campeonato", afirma Marlene, 60.

Ao lado dela, no quintal de uma casa em Pirituba, na zona norte de São Paulo, um homem de 39 anos gesticula, indicando estar de acordo. É Franz Hermann, que invadiu o Maracanã em 5 de dezembro de 1976, dentro da barriga da mãe.