Zé Maria, Tobias e chuva salvam Corinthians no Maracanã
NAIEF HADDAD
DE SÃO PAULO
Às 17h15 do dia 5 de dezembro de 1976, o juiz baiano Saul Mendes deu início a Fluminense versus Corinthians, a partida mais aguardada do ano até então.
Pelo time paulista, sob o comando de Duque, começaram o jogo: Tobias, Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Wladimir; Givanildo, Russo e Neca; Romeu, Vaguinho e Geraldão.
Do lado tricolor, do técnico Mario Travaglini, entraram Renato, Rubens Galaxe, Carlos Alberto Torres, Edinho e Rodrigues Neto; Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Rivellino; Gil, Doval e Dirceu.
Aos 19 minutos do primeiro tempo, a equipe tricolor saiu na frente, com gol do volante Pintinho em chute no canto direito de Tobias.
O Corinthians manteve a tranquilidade e, dez minutos depois, chegou ao empate, com uma meia-bicicleta de Russo, também volante.
Apelidado de Beijinho Doce, por espalhar beijos para a torcida após fazer seus gols, Russo foi um dos jogadores mais queridos pela torcida na segunda metade dos anos 70. Além do jogo da "invasão", em 1976, também esteve na final contra a Ponte Preta, em 1977, que tirou o Corinthians da fila.
CHUVA CORINTIANA
Até então intermitente, a chuva ganhou força no final do primeiro tempo. O gramado já estava completamente encharcado no intervalo, quando Rivellino tentou convencer o juiz de que não existiam condições adequadas para o jogo. O presidente do Corinthians, Vicente Matheus, se contrapôs ao pedido. Vinte minutos depois, os atletas estavam de volta ao campo.
"Se não chovesse, seria realmente complicado pra gente. O time deles era mais leve", recorda-se Tobias.
A torcedora Marlene Hermann, grávida de Franz, se lembra que não havia água pra beber dentro do estádio, e sua garrafinha tinha sido confiscada pelos policiais na entrada do Maracanã. Como o calor persistia, apesar da chuva torrencial, ela colocava as mãos sob uma goteira para recolher a água e bebê-la. Muitos mataram a sede assim naquele dia.
Ao longo do segundo tempo e da prorrogação, o futebol tornou-se impraticável. As poças d' água impediam a troca de passes, e os chutões passaram a dominar o jogo.
Naquelas condições, Rivellino não pôde jogar como sabia. Além disso, foi muito bem marcado por Russo.
Dois dias depois, na capa da "Ilustrada", caderno de cultura da Folha, Chico Buarque, torcedor do Fluminense, escreveu: "O jogo em si foi mesquinho, diante do espetáculo nas arquibancadas".
Em um texto com tom descontraído, o compositor elogiou especialmente Wladimir, lateral esquerdo do Corinthians.
Reprodução/Acervo | ||
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Capa da "Ilustrada" do dia 7 de dezembro de 1976 |
Chegava a hora dos pênaltis. Nos dias anteriores, os atletas do time paulista tinham treinado cobranças, mas os jogadores do Fluminense não. Estavam convictos de que venceriam o jogo no tempo normal.
Neca marcou o primeiro pelo Corinthians.
"Imagina o cara vindo do meio de campo para bater o pênalti num jogo como aquele, com mais de 150 mil pessoas. O gol fica pequenininho pra quem vai cobrar. Já o goleiro não tem responsabilidade nenhuma", diz Tobias, que havia defendido um pênalti de Pelé anos antes, quando jogava pelo Guarani.
Rodrigues Neto, do Fluminense, fez a primeira cobrança, à meia altura, e o goleiro corintiano defendeu. Mas o juiz anulou o lance, indicando que Tobias havia dado um passo à frente.
Rodrigues Neto voltou a bater, desta vez um chute rasteiro. Mais uma vez, Tobias evitou o gol, para a euforia da torcida alvinegra.
Russo fez o segundo. Estava 2 a 0 para o Corinthians, e a responsabilidade agora recaía sobre os ombros de Carlos Alberto Torres, que tinha sido tricampeão pelo Brasil na Copa do México, seis anos antes.
O lateral direito bateu no canto direito de Tobias, à meia altura. Para o êxtase da torcida, o goleiro defendeu. Estava próximo da consagração.
"O Tobias era um bom jogador, mas não era considerado um goleiro de seleção. Falhava alguma vezes", afirma Igor Ojeda, autor do livro "A Invasão Corinthiana".
Ele jamais foi à seleção, mas aquela partida era fundamental para registrar seu nome definitivamente na história do Corinthians.
Nas cobranças seguintes, Moisés marcou pelo time paulista, e Doval acertou o primeiro pênalti pelo Fluminense. 3 a 1.
Coube ao capitão Zé Maria a cobrança que poderia dar fim ao jogo.
"É comum ficar nervoso em cobrança de pênaltis, mas aquele dia... Dava até tremedeira, e eu tentava me controlar com medo de que acontecesse algo com o neném", conta Marlene, cuja admiração por Zé Maria só cresceu ao longo desses 40 anos.
O lateral direito chutou no ângulo direito, sem chance para o goleiro Renato.
Para o alívio de Marlene, o Corinthians estava classificado para a final do Brasileiro.
"Nessa hora, você abraça o marido, o rapaz da frente, o do lado, o de trás. Todos se abraçam. Me lembro de ter ido ao banheiro e visto uma mulher que chorava muito e dizia: 'A gente tinha que confiar no Tobias'".
O JOGO EM HQ
Ilustração Alexandre Teles | ||
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Mais de 70 mil corintianos foram ao Maracanã incentivar o time |
Ilustração Alexandre Teles | ||
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Sob chuva, jogadores de Corinthians e Fluminense jogam partida disputada, que encerrou 1 a 1 |
Ilustração Alexandre Teles | ||
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Chuva foi boa para o Corinthians, que segurou o empate, que levou a partida para os pênaltis |
Ilustração Alexandre Teles | ||
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Locutor durante a transmissão do jogo histórico no Maracanã narra a disputa de pênaltis, vencida pelo Corinthians |
Ilustração Alexandre Teles | ||
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Jogadores do Corinthians comemoram vitória sobre o Fluminense |